Veja a história de quem é feliz treinando um time de garotos no texto de Matheus Brasil.

O Técnico e sua roupa da sorte, como ele mesmo diz.

12 meninos, um time desacreditado, uma escola carente de esportes e um jovem com um sonho. Essa é a história do time de futsal sub-15 da escola municipal Eber Louzada Zippinotti, localizada em Vitória. A equipe avança cada vez mais no Jemvi (Jogos Estudantis Municipais de Vitória). Talvez, o que será contado aqui poderia servir para os grandes roteiros de Hollywood, mas isso, simplesmente, acontece aqui, do nosso lado.

Tudo começou com um jovem de 19 anos, Felipe Cirilo, ex-estudante da escola e atual treinador do time. Parte do corpo discente da própria escola durante nove anos, o atual técnico ganhou quatro títulos como aluno, sem falar nas decisões perdidas. A constante presença nas fases finais dos campeonatos, inesquecíveis para Felipe, é de invejar qualquer grande jogador e muito time grande do atual cenário do futebol brasileiro.

Algumas das antigas glórias da Escola.

Felipe conta que, antes da sua iniciativa de convocar a comunidade para formar um time, não havia tanto incentivo para o esporte. “Ninguém queria treinar o time. Fiquei comovido ao receber a oportunidade e sei que, ao ganhar os quatro títulos, eu posso ajudá-los a ganhar, pelo menos, um. Meu sonho é que eles saíssem daqui com pelo menos essa lembrança boa dos tempos de escola”, conta o emocionado treinador.

Mas, não foi fácil. “Antes do Felipe, ninguém queria treinar os meninos”, quem diz isso é Jocimar do Santos, atual diretor da escola, onde leciona desde 98. Jocimar afirma que a escola tem quatro professores responsáveis pela educação física e nenhum deles queria pegar o cargo, que tomaria tempo do final de semana sem, até então, nenhum retorno financeiro. “Os alunos adoram esporte. Quando disse que não participaríamos, eles ficaram arrasados. Não tinha ninguém pra treinar e nem como pagar, muito menos final de semana”, revela o diretor.

Cercado pelos meninos, o “professor” canta mais uma jogada.

Pressionado, Jocimar precisava dar resposta sobre a participação do time do Eber para a Secretaria de Educação na sexta (19 de agosto). Um dia antes, Felipe procurou a escola e se disponibilizou de graça. Depois do acerto, a Secretaria divulgou o pagamento de hora-extra para os técnicos. “Com essa coisa de pagar hora-extra, os professores queriam o cargo. Mas, eu estava firme na decisão. Teve preconceito por ele não ser estudante, muito menos formado”, diz o orgulhoso professor.

Animado com o projeto, Felipe elaborou táticas novas, conquistou a amizade dos meninos e arranjou uma forma de deixar o time sempre junto: os garotos, sempre que podem, dormem na escola antes dos jogos. Sim, é isso mesmo. “Quando peço pros meninos dormirem na escola, é pro bem do time. E eles sabem disso”, evidencia o treinador num bate-papo informal.

Renzo Soares se arruma para mais uma noite entre amigos.

Após passar por todas as dificuldades e vencer o preconceito até dentro da escola, o professor Felipe, como é chamado pelos jogadores-alunos, acha importante ter contato dentro e fora da quadra, reúne o time, dorme e acorda com ele. Tudo isso pra manter a “unidade, amizade e entrosamento”, como ele sempre gosta de lembrar-se dos comandados.

A aceitação da idéia não podia ser melhor. Segundo Lucas Belucio, apontado como um dos mais responsáveis do elenco pelo próprio técnico, o time parece mais concentrado quando dorme na escola, além de ser uma oportunidade de aumentar a amizade. “Concentrar com o Felipe e ter essa estrutura (os alunos recebem janta e café-da-manhã) só faz a gente pensar como um time. Não era legal quando não ligavam pra gente, agora, somos outro time”, diz o jovem fixo de 14 anos.

Mais um contra-ataque do time Rubro-anil.

Para os pais, o Eber Louzada, como é popularmente conhecido o colégio, fica em Jardim da Penha, bairro de classe média da capital capixaba. Assim, o Eber dispõe de uma ótima estrutura, principalmente se levar em conta o fato da escola pertencer à prefeitura.

Porém, a estrutura era mal utilizada e o esporte fazia falta aos moradores e alunos.

Momento de tensão: Falta na entrada da área.

Eldemar Lucas, pai do Iury Leite, que, por sua vez, é um dos representantes do futebol moleque do time, garante que a comunidade está surpresa e defende a continuidade do projeto para os próximos torneios. “É sempre bom ver os meninos juntos. Lembra minha infância e a comunidade só tem a agradecer aos meninos, ao diretor e ao Felipe”, lembra o pai ao avistar o técnico e Jocimar numa breve conversa.

Os resultados? Já nas quartas-de-final do Jevim, isso é o que menos importa. Tudo bem que o time do Eber não conhece a palavra derrota dentro do Jemvi. Na última rodada da fase de classificação, a empolgação pelas duas vitórias sem contestação e um controverso empate, principalmente pela atitude intempestiva do árbitro, era nítida.

Os números anotados na súmula foram 4 à 1; 6 à 1; e 3 à 3. Porém, esqueceram de anotar os valores de cada sorriso dado pelos “Meninos do Eber”, como seu auto-apelidaram numa clara referência aos Meninos da Vila, time de Neymar, Ganso e companhia.

Seriedade antes dos jogos é exigência do time.

Por fim, o técnico, carregado pelas glórias invisíveis de quem estuda a montagem de novas táticas e treina seus meninos sem receber qualquer compensação financeira pra isso, respira aliviado. “Futebol, pra mim, é tudo”, finaliza o feliz professor Felipe Cirilo.

Uma das mais de 20 táticas elaboradas por Felipe.

O time, animado com a estreia do novo uniforme – fruto de mais uma luta de Felipe e Jocimar -, encara a escola Maria José, do bairro São Pedro. Ninguém sabe quem vencerá, mas já temos, pelo menos, toda uma comunidade orgulhosa dos seus meninos.

Os Meninos:
Igor Teixeira, 15
Marcel Franco, 13
Lucas Belucio, 14
Gabriel Amorim, 14
João Victor Zoca, 14
Caio Apolinario, 14
Thiago Ferrari, 15
Iury Leite, 14
Lucimar Hintz, 14
Carlos Rosa Reis, 15
Renzo Soares, 14
Gabriel Santana, 14

One thought on “Coluna Futebol do Brasil: “Eu fiz por amor”

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